A Cerimónia Ainda Existe?
É provavelmente a frase que mais ouvimos.
“Mas a Cerimónia ainda existe?”
Existe.
E continua de portas abertas no mesmo lugar de sempre, depois de ter passado de geração em geração sem nunca encerrar portas.
E continua exatamente no mesmo lugar onde milhares de lisboetas compraram os seus primeiros sapatos para uma festa, um casamento, um batizado, um emprego ou simplesmente para o dia-a-dia.
Houve um tempo em que a resposta era óbvia.
A Cerimónia fazia parte da vida da cidade.
Nos anos 70 e 80, a fila estendia-se pela Rua da Prata fora. Havia funcionárias com microfone na mão a organizar a multidão.
“Esta fila é só para a sapataria.”
Parece exagero para quem não viveu essa época.
Mas não é.
Vendiam-se mais de cem pares de sapatos num único dia.
A Baixa era outra.
As lojas estavam cheias de portugueses.
As montras eram cuidadas.
As famílias passeavam ao sábado.
As pessoas vinham ao centro da cidade para comprar qualidade, procurar as novidades mais recentes, inovadoras para a época, e encontrar produtos que duravam anos.
Hoje, muita coisa mudou.
E nem toda a mudança foi progresso.
Percorremos a Rua da Prata e vemos portas fechadas onde antes existiam negócios de família.
Vemos espaços vazios onde antes havia comerciantes que conheciam os clientes pelo nome.
Vemos uma cidade que, em muitos locais, começa a parecer-se com tantas outras.Mais uniforme.
Mais indiferente.
Menos Lisboa.
Não somos contra a mudança.
Lisboa sempre foi uma cidade aberta ao mundo.
Foi construída por comerciantes, viajantes, marinheiros e pessoas vindas de diferentes geografias.
Mas uma cidade cosmopolita não tem de ser uma cidade sem identidade.
O problema não é o que chega.
O problema é aquilo que desaparece.
Porque quando uma loja histórica fecha, Lisboa perde muito mais do que um negócio.
Perde memória.
Perde conhecimento.
Perde relações humanas.
Perde uma parte da sua alma.
As Lojas com História existem precisamente porque alguém percebeu que o património de uma cidade não são apenas os monumentos.
São também as suas livrarias.
As suas mercearias.
Os seus cafés.
As suas sapatarias.
Os seus comerciantes.
Os seus clientes.
As histórias que passaram de geração em geração.
A identidade de Lisboa não está apenas nas pedras da calçada.
Está nas pessoas que continuam a abrir a porta todos os dias.
Está nas lojas que resistem.
No elétrico que ainda passa.
Está nas fachadas antigas que ainda contam histórias.
Recentemente ofereceram uma renda muito superior à que recebemos para um espaço ao lado da nossa loja.
Era uma proposta financeiramente difícil de ignorar.
Mas escolhemos outro caminho.
Preferimos acolher um projeto que respeitou o edifício, a rua e a história do local.
Porque acreditamos que nem tudo pode ser medido apenas em euros por metro quadrado.
Algumas decisões têm de ser tomadas pensando na cidade que queremos deixar aos nossos filhos.
Há uma expressão antiga de Lisboa que diz que uma cidade vive das suas pessoas.
E é verdade.
Mas também vive dos seus lugares.
Dos seus hábitos.
Dos seus rituais.
Da arte de bem receber.
Da arte de conversar sem pressa.
Da arte de conhecer quem está do outro lado do balcão.
Talvez por isso tantas pessoas nos perguntem se a Cerimónia ainda existe.
Porque durante demasiado tempo deixámos de contar a nossa história.
Mas existimos.
Continuamos aqui.
Na mesma cidade.
Na mesma rua.
Ainda com muitos clientes antigos.
E com a mesma convicção.
Lisboa pode modernizar-se.
Deve modernizar-se.
Mas não pode esquecer quem é.
Porque uma cidade sem memória deixa de ser cidade.
Passa apenas a ser um cenário.
E a nossa Lisboa merece muito mais do que isso.
Nana Ferrador
